Para ti, Mãe.

O meu Mundo são as minhas pessoas. É nelas que tenho a minha verdadeira casa. Quando me refiro a casa ou a Portugal é a eles que me refiro. Aos meus. A minha casa é sempre onde eles estiverem. Há 10 anos tivemos que reconstruir a nossa casa. Faz hoje dez anos que a palavra saudade ganhou uma dimensão incomensurável. A palavra Mãe passou a ser proferida, por nós, mais baixinho. Ninguém merece esse título se não podemos ter a nossa junto de nós. Passaram 10 anos desde aquele telefonema. 10 anos. Parecem 100 anos. Parecem 10 minutos.

Não gosto do Carlos do Carmo. Não é o cantor que me bule com os nervos. É a pessoa que, socialmente, transparece. Mas isso que importa? A minha Mãe gostava e muito. E nunca mais conseguirei ouvir esta música sem que o meu coração encolha de saudade. Para ti, Mãe. Beijo.

Advertisements

All-in or nothing at all

Uma das grandes dificuldades de ser adulta é assumir que vai estar sempre qualquer coisa menos bem e que a vida é mesmo assim. Quanto mais cedo aprendamos isto menos dores de cabeça teremos. Ora, esta foi uma lição recém-adquirida para mim. Eu, control-freak assumida, tenho dificuldade em dizer que não sou capaz de fazer tudo ao mesmo tempo. Porque raio não seria capaz?

Outra dificuldade é não cair na tentação de nos compararmos com os outros. Sabemos lá o que se passa na vida dos outros. Caramba, a maior parte dos dias nem sei o que se passa na minha. Mas esta coisa da comparação dá-nos frustrações indevidas. Mesmo. Muitas. Oh se ela consegue ser fit, mãe, empresária e a melhor mulher do Mundo e eu não, a besta sou eu. Anormalóide.

Quando nos mudámos para Oslo, eu trazia um mindset de mudança de vida. Ia ficar mais fit, comer melhor, meditar, tratar da tese, estudar norueguês, ser a melhor namorada, apoiar o Moço em tudo, cuidar da casa, ver e visitar tudo a que tivesse direito, arranjar trabalho, ler muito, ouvir ainda mais música, beber mais àgua, ser, ainda que longe, boa irmã, filha e tia, boa amiga e, no fim de contas, ser melhor para mim. Mas não fiz um plano. Ia ser tudo ao mesmo tempo. All in or nothing at all. Esqueci-me que não valho nada a jogar poker. ZE-RI-NHO. E na ânsia de querer tudo ao mesmo tempo, passados quase três meses, não consegui quase nada daquilo a que me propûs. E isso chateia. E isso chateia muito uma tipa control-freak. E isso chateia-me mesmo muito.

Como em quase tudo na vida, às vezes temos que dar um passo para trás para poder dar dois para a frente. Fiz um plano. Baixei o nível de expectativas em alguns objectivos. Juntei a saudade e a emoção à equação. Ah e a inconveniência de o dia só ter 24 horas. Estou a dar pequenos mas firmes passos. Quase orgulhosa de mim mesma. All-in mas na mesa dos pequeninos.

Los vicinos

Depois de dois meses e meio em Oslo, a converter mentalmente os preços para euros, a fazer um esforço para perceber uma palavra aqui e outra ali, chegar a Madrid para assistir à boda de um amigo nosso, não podia ter sido mais confuso. Há que dizer que quando saímos de Oslo chovia copiosamente. Em Madrid, 30º C graus à sombra. Uma multidão de gente na rua às 16h00, em dia de semana, e muito trânsito. Por aqui passa-se o inverso. Mesmo que saía toda a gente à rua, as ruas nunca têm muita gente. Bem, pelo menos em comparação com Madrid. Eta, cidade animada. Em comparação com o custo de vida por aqui, as coisas pareciam muito baratas. Trouxemos muitas coisas de uma loja low-cost que, segundo os noivos, tem tido grande sucesso (pelas razões que a gente ali na Península Ibérica bem conhece…) em Espanha: Mercadona. Comprámos produtos a um quinto do preço de cá e mais barato do que compraríamos em Lisboa. Saldo positivo, portanto. 

Mas fora as praticalidades, Madrid continua a ter aquele encanto de cidade sempre em movimento, gente bonita, um castelhano rápido e alto e o humor espanhol que é delicioso. Mas a grande surpresa seria León, local onde decorreu a boda. Cidade gira, pá. E onde ainda resiste o verdadeiro conceito de tapas: “Tomas una copa, toma una tapa”. Chovia imenso mas isso não demoveu centenas de pessoas de sairem, na mesma, em grupos, para tomar algo e divertirem-se. O mesmo fez a turma do noivo, nós incluídos. O casamento decorreu todo no Parador de Léon (giro mas giro pá) e atendendo a que era um casamento internacional deu até para aprender mais umas quantas tradições espanholas e arménias. 

Não conheço gente com tanto jeito para se divertir como os espanhóis. Ok, é certo que eu não conheço muita gente. Mas os espanhóis têm uma resistência à mistura àlcool/cansaço/levantei-me muita cedo/estes saltos matam-me fora do comum. Depois do casamento foram, ainda, a uma discoteca. Claro que eu, velhota como sou, fui dormir mas o moço foi com o comité nupcial e, aparentemente, divertiu-se. Não me parece é que se lembre, todavia. Mas foi muito divertido, mesmo. As pessoas estavam mesmo felizes pelos noivos e, nestes, a felicidade era evidente. Que a vida os mantenha assim! E quanto a nós, soube-nos muito bem a pausa de Oslo e estar com amigos.

Mas o que doeu foi saber-me a umas centenas de quilómetros de Portugal e não ter podido ir. As saudades ainda doeram mais. A placa na auto-estrada dizia Portugal e eu lia Casa. Caramba, que saudades de Casa. 

Vida outdoor: Viking style

O tempo não podia andar mais esquisito. Por aqui faz Sol e calor (sim, calor! Não são 30 graus mas o tempo é tão seco que parece!) e em Lisboa chove há muito tempo consecutivo. “Mais dois dias de chuva e frio e monto o presépio!” Está aqui qualquer coisa mal. O tempo por aqui convida a churrascos e a sonecas na relva e a desporto ao ar livre. Mas eu e o moço descobrimos que as coisas, por aqui, são mesmo levadas a sério no que ao estilo de vida outdoor diz respeito. Ora, o que apetece com este solinho bom? Coisinhas grelhadas e saladinha. Revirei os armários da nossa senhoria. Nada de grelhadores daqueles de grelhar coisas no fogão. Bem, já sei, vou comprar, não deve ser assim tão caro. ERRADO! A escolha em Oslo não é muita mas ainda existem umas cinco lojas, que eu conheça, claro está, de coisas para a casa tipo Polux ou Braz & Braz. Lá fui. Não havia. Mais outra e nada. Ora, eu tenho tido aulas de norueguês e já sei dizer e reconhecer alguns números e por isso não foi fácil disfarçar a minha cara de atum quando a senhora disse que o único que encontrei custava sju tusen kroner, que é como quem diz, sete mil coroas. Oi? Sete mil? Mas quê, já traz um ano de bifes? Lava a loiça? Massaja-me os pés no final? Mau. Bem, de cafézinho ranhoso na mão, desci a Karl Johan e tive outra ideia genial: “IKEA!!”. Fui ao site e descobri o dito: 149 kr. é mesmo isto O moço saiu do trabalho, apanhámos o autocarro e lá fomos nós. Ai que IKEA tão giro, ai que engraçado, as coisas são iguais às que há em Portugal, olha e vai ali o tipo vestido de amarelo e vou perguntar: “Hei, har du grillpanner?” “Nei.” Chateei-me. Como assim não? Mudei para inglês não fosse ter perguntado se tinham trolls vivos em exposição mas recebi a mesma resposta. Nei, só em Outubro. Perante a minha cara de pasmo, o rapaz de amarelo disse com o tom mais natural do Mundo: “Pois, é que agora é Verão.” Miguito, duas coisas: o Verão começa em Junho lá para vintes e isso não faz sentido nenhum. Amuei e viemos embora. Agora está solinho, o pessoal colocou os grelhadores a carvão ou a gás nas varandas e grelha ali a carnicha e o peixinho. Ou então nos parques. Não lembraria a ninguém – a não ser a mim e ao meu moço – grelhar coisas em casa. Humpf… Adiante. 

Outro dos nossos objectivos, durante a nossa estadia em terras vikings, era, finalmente, aprendermos a nadar. Fomos à piscina aqui perto. Que não davam ali aulas tinha que ser onde Judas perdeu as botas. Fomos de metro até aí, tropeçámos nas botas de Judas e fomos brindados com outra curiosidade jeitosa. Estas coisas são, ao que tudo indica, bastante óbvias para os locais, a mim, tipa da Margem Sul, confesso, faz-me alguma confusão. Nop, nada de aulas de natação no Verão. Tanta água aí fora e vossemecê quer nadar aqui dentro? Oh, que tolice. Toma e embrulha. Manda-te ao Mar do Norte e aprende a nadar sozinha. Ou de braçadeiras do Nemo. 

A vida outdoor é mesmo apreciada por aqui. E eu acho bem. Salvo quando se torna meio estranho ou desadequado. Eu explico. Eu e o moço tivemos o nosso primeiro contacto com a Polícia local enquanto gente preocupada com o próximo exactamente porque achamos que ele há coisas que são excessivas. Mas vai daí, se calhar, é só tolice nossa. 

Edvard Munch é norueguês. Edvdard Munch está sepultado aqui. O meu moço gosta de passear em cemitérios. Eu não sou especial fã porque acho que ali cabem os que morrem e os que os lamentam. Mas há que reconhecer que são sempre sítios calmos, pacíficos e, regra geral, de alguma beleza. Por cá, o cemitério de Vår Frelsers tem montes de relva, banquinhos e a sepultura de Edvard Munch. As pessoas quedam-se por ali, a ler, a correr (?!), a passear o cão, a conversar e, como nós, a admirar os monumentos fúnebres. Ah e ainda há os que dormem. Pois. Vamos andando e atrás de uma sepultura estava um mocinho loirinho, todo amarfanhado, dormindo profundamente (devia estar exausto das aulas de natação outdoor no Mar do Norte) e com uns arranhões no braço. “Hey! Oh tu!! Hello!! ÓI!!” e ele nada. Outras pessoas passaram por ali e, aparentemente só nós achámos estranho. O ar é de todos e as pessoas dormem onde elas quiserem, ora cá estes, hein? Ralados com o moço e incapazes de o acordar fomos à esquadra mais próxima. E lá relatámos o que vimos e a senhora anotou tudinho, tendo depois pedido as coordenadas através do telefone do meu moço (antigamente a gente descrevia mais ou menos onde era e pronto. Há que haver rigor minha gente, precisão!), via Google Earth, ficou com o nosso nome e número e obrigadinha. 

Diz que ia enviar lá uma ambulância. Mas eu acho que deve ter dito aquilo só para nos descansar. Afinal, até nem estava mau tempo e a relva ali era tão boa como em qualquer outro lado. Mania de português em meter-se em tudo o que não é chamado,

Sem queimaduras

Quem diria que o Domingo de procissão da minha Santa Terrinha seria descaradamente copiado pelos Vikings? Ah, pois foi. Julgam-se muito espertos mas ainda eles andavam a decidir se queriam ser suecos ou dinamarqueses já a minha Santa Terra fazia disto. É lá novidade vestir o melhor fato que têm no armário, comerem até ser impossível manter abotoadas as calças e depois terminar o dia com uma bebedeira fenomenal? Só faltou o toiro perdido e era mesmo igualzinho. Devo dizer que de trajes eles percebem mas de festarola animada, nem por isso. Parecia mesmo a procissão, pá!

Falando sério, este pessoal leva isto a sério. Vestem os trajes típicos da zona e de família, pespegam bandeirinhas da Noruega em todo o lado, caminham nas ruas como se fossem figurantes de uma encenação da última batalha em Oslo e gritam: Hip, Hurra! E depois juntam-se em casa de amigos ou nos parques e grelham coisas, comem e bebem demais.

E eu fartei-me de descobrir coisas novas e arranjei um torcicolo na língua. Nada de porcarias, eu explico. Encontrámo-nos com alguns expatriados perto do National Theatre (atravessar a rua foi cena à Indiana Jones, se bem que eu me safei bem porque sou demasiado baixa para chegar ao radar visual deles) e apresentámo-nos: dois portugueses, uma chilena, um libanês, uma alemã, dois brasileiros, dois italianos e um inglês. A língua portuguesa esteve em maioria. Vai daí, porque não sei estar calada e sugadita no meu canto, perguntei à chilena: “Oh Anna, tu és tão loirinha, de olhos azuis… pareces mesmo norueguesa”. Ao que ela me responde: “Pois, eu nasci no Chile mas os meus pais são daqui.” Ah ganda Cláudia, ganda Sherlock pá, sempre atenta. E ela lá me explicou, em espanhol, o código dos trajes nacionais, as cenas com os adolescentes de cá e ainda falou português porque já vivera em Moçambique. Norueguesa esquista, esta.

Já éramos suficientes para assar salsichas e fomos para a ilha de Hovedoya e lá nos instalámos. Grelhou-se (sem incidentes), comeu-se, bebeu-se, rimo-nos e estabelecemos paralelos: em comum temos o facto de sermos todos estrangeiros em Oslo mas o grupo era engraçado e, pelo menos até o Sol nos abandonar, esteve-se bem. Já encontrei com quem escalar (leia-se humilhar-me porque já não escalo há um ano) e aprendi uma série de factos novos sobre outros países. Cometi alguns erros diplomáticos, frutos de ignorância proverbial da minha parte e saí de lá a cheirar a fogueira. O complicado foi mesmo falar inglês com uns, espanhol com outros, português com outros e ainda dizer uma ou outra coisa em norueguês. O meu cérebro amarfanhou-se todo e fez greve. Já não sabia em que língua responder, processava a pergunta em inglês e saía em português quando devia ter saído em espanhol. Que torcicolo arranjei na língua. Ah e armada em parva ainda “falava brasileiro”…. é costume meu, como quem me conhece sabe, mas achei que o pessoal carioca não achou grande graça.

Acho que cumprimos a missão. A regressar, sem dúvida. Assim que aprenda a dizer o nome da ilha… :S

Deixa arder

Se o título soa poético é porque quem me lê é tolinho. Deixa arder é poético? Atão, mas eu sou o Pedro Paixão ou quê? Ai, vamos lá falar a sério.

AVISO: Contém triggers para piromaníacos; depois não digam que eu não avisei.

Amanhã, dia 17 de Maio, é dia da Constituição Norueguesa.

Wikipédia, conta-nos tudo: ttp://en.wikipedia.org/wiki/Norwegia_Constitution_Day

Quando chegámos há cerca de mês e meio já haviam bandeirinhas da Noruega em todo o lado mas eu, inteligente como eu só, achei que era uma cena normal. É verdade que o pessoal aqui usa a bandeira em quase tudo: ele é casacos, ténis, malas, carrinhos de bébe, jardineiras dos estudantes (ui, longa e estranha história), bolos, etc. Mas rapidamente nos apercebemos – sim, nós, eu sozinha era capaz de continuar a achar normal – que tinha tudo que ver com o feriado mais importante da Noruega. Haverão desfiles, paradas, festa rija no centro da cidade, toda a gente vai usar o traje nacional – nop, não são as calças de lycra – e usar a bandeira nacional em, arrisco dizer, todo o lado. LI-TE-RAL-MEN-TE. Os boquets de flores nas lojas já envergam as cores azul e vermelho e por todo o lado se fala nesta festa. Tuga que é tuga vai ver a desgraça alheia e por isso lá estaremos na Avenida Karl Johan para ver a festarola. Mas não ficamos por aqui.

Quem não é norueguês assiste aos festejos na mesma – recuso-me a vestir o traje porque fico ridícula vestida de tirolesa e teria que fazer 1,5 metros de bainha ao vestido – e, ao que parece, quem não é norueguês junta-se e depois vai grelhar coisas para o parque e beber na rua. Em regra não se pode beber álcool em público mas talvez por ser feriado vão abrir uma excepçãozita.

E perguntam vocês fascinados com a história que relato: “Ah, mas há grelhadores nos parques?”,  ao que eu respondo de sobrancelha arqueada até ao couro cabeludo: “Achas?! Ts ts ts. Humpf… Cada um leva o seu, claro!! ”

Pois… não sei quanto a vocês mas eu sempre achei perigoso atear fogos nos parques. Uma tolice minha, estou certa mas não me soa bem. Adiante. Então, e porque iremos juntarmo-nos a um grupo de expatriados (caramba, que isto soa mal!), comprámos salsichas, pão a condizer com as salsichas, salada, bebida e… um grelhador portátil e descartável. Tudo tranquilo que no parque há caixotes do lixo próprios para depositar o grelhador descartável no final da comezaina. Vai ser inédito. Gosto pouco de situações embaraçosas, especialmente em público, por isso, para demonstrar que sou uma tuga da margem sul completamente zen, se amanhã, a tentar assar uma salsicha, pegar fogo à roupa já sei o que vou dizer: “Sem stress, foi de propósito. Deixa arder.”

Desejem-me sorte. Sou capaz de precisar.

Eu nunca me perco

Sou daquelas pessoas que fica especada a olhar para os outros. Eu sei, falta de chá impressionante. Mas parte de estar aqui agora é, também – acho eu mas não vão por mim que eu sou má de conclusões -, prestar atenção ao que nos rodeia. Aos miúdos nos autocarros, às expressões faciais do pessoal ao telefone, o jeito engraçado de colocar os pés quando não nos sabemos observados. Por cá tenho feito muito disso. Acho que sou meia transparente já que toda a gente está enfiada no seu próprio Mundo: olhos no iphone, no livro ou de olhar perdido enquanto ouvem os phoninhos brancos. Gosto de trocar olhares e sorrisos com desconhecidos e, por cá, isso não é muito normal. Isto digo eu a julgar pelos olhares fulminantes que me dirigem quando emergem dos seus telefones. Mas eu sou tuga e da Margem Sul e não há muitos olhares que me intimidem (Não Pai, não estava a contar contigo… sim, o teu intimida 🙂 ) e por isso sorrio de volta e acho que os desconcerto. Como diria o Sheldon Cooper: “I’m not crazy. My mother had me tested.”.

Hoje fiz uma caminhada em passo rápido. Outra das minhas tontices favoritas é a de gostar de caminhar sem rumo. A olhar para cima e para dentro dos edifícios. Claro que depois é ver-me com um ar de rafeiro perdido nas paragens dos autocarros para perceber onde estou e como regresso para casa. Já disse que tenho um sentido de orientação ex-ce-len-te? Pois, mas tenho. O que vale é que raramente me aborreço com isso e acabo sempre por regressar ao ponto de partida: casolas. Vou distraída a olhar para as casas, para as àrvores, para o pessoal que passa de calças de lycra, para os monumentos e esculturas, para os cafés e de phones nos ouvidos com Volbeat a acompanhar. Acho que só dá para me perder se, quando saí, sabia para onde queria ir, né? Como assim não faz sentido nenhum? E quem é que vos perguntou alguma coisa, hein? Pshiu, quem está a contar a história sou eu. Mau, mau.

Hoje a caminhada deu em banho. Assim que me afastei 2 kms de casa começou a chover. Primeiro uma lasquinha só, depois uma tromba de àgua. Mas eu era uma miúda com uma missão. Fazer 5 kms, pelo menos. Não podia desistir agora. E fui andando, e fui anotando no telefone os nomes das ruas por onde passava e os sítios com pinta a que queria, depois, trazer o moço.

E quando dei por mim, já tinha feito 8 kms e devia estar mesmo longe de casa. O bom senso sussurrou-me: “Canastras pá, tens que ir sempre a descer que é para ires em direcção ao mar. Daí já te safas.” Mandei o meu bom senso cagar. Consegue ser mais tanso que eu. Á pala dele perdi-me quando tinha 5 anos em Tróia depois de descobrir que não era mais fácil ver o Pai e a Mãe a partir da beirinha da àgua. Bem, pelos menos não nos anos 80, em Tróia, ao Domingo. Foi a ida ao caixote do lixo mais longa de sempre. E fui trazida ao colo por um nadador-salvador. Não, riquinhos, isto não é para todos. É só para abéculas como eu.

Bem, mas já me desviei do assunto.

Sem o bom senso para ajudar, procurei uma paragem e apanhei um autocarro para casa. No caminho para cá entretive um gaiato turco a fazer caretas. Até aí o desgraçado vinha a berrar a plenos pulmões para embaraço e frustração de um pai à beira de um ataque de nervos.

Estava ensopada, com aquele ar de quem não sabe muito bem onde está e desconfiada que já me deviam ter mexido na roupa que tinha deixado a lavar na lavandaria comum do prédio. Isso entretém qualquer criança, pá. Isso e macacos mas como até fiz o buço excluo-me, distintamente, desta categoria. Pelo menos esta semana.

Desporto e dieta em Oslo

O que esta gente corre, benzamedeus. A toda a hora é vê-los: ténis fluorescentes, calças de desporto de licra, corta-vento, iphone no braço, phoninho branco nosóvidos e lá vão eles formosos e seguros. E loiros, esqueci-me! Ginásios por Oslo: perder-me-ia se tentasse contar mas arrisco nuns 70. E sempre que espreito há gente a treinar. Haja saudinha, Antunes. Mas, como quase tudo por aqui, as inscrições nos ginásio são caras pelo que muita gente corre pelas ruas e pelos muitos e imensos parques de Oslo. A toda a hora, literalmente. Já vim à janela às 3h30 e vi um tipo a correr. Estavam 3ºC mas o senhor ia cheio de confiança. E eu voltei para a cama. Tásmazémaluco pá!

Quando vim para cá trazia um objectivo em mente: perder peso (4 – 5 kgs) e recuperar a forma física. Subscrevi o plano online do Treino em Casa (http://www.treinoemcasa.com), por ser leitora assídua da Catarina Beato (http://diasdeumaprincesa.clix.pt/) que detém, atualmente, uma daquelas barrigas que eu sempre quis desde miúda (sim mais do que uma Barbie ou uma saia da lambada, true story). Vai daí que tenho treinado em casa, 60 minutos por dia, 4 vezes por semana. Não posso correr por ter perdido um bocado da rótula à batota mas caminho com velocidade (caminhada do poder, Pan!!!) e faço os exercícios que me foram prescritos pelo pessoal do Treino em Casa. Suo e doem-se-me os músculos mas a banha está dar luta. A p***!

Prôbrêminhá gentxi: o treino é para ser associado a uma dieta mais ou menos rigorosa: poucos cereais, zero açucares sintéticos e maneiras à mesa. A boa da Cláudia (nop, nada boa que a minha barriga continua a assemelhar-se à dobrada antes de ser cozida) eliminou quase todos os açucares da sua dieta. Come vegetais e fruta como se fosse herbívora e cedeu à aveia com iogurte e fruta ao pequeno almoço. Mas estou numa cidade que tem tudo para descobrir. Coisas estranhas no supermercado, receitas locais, doçaria local e tudo o que engorda local. É difícil. Fora que não sabendo ler os rótulos às vezes compro coisas gordas em vez de magras mas isso é porque eu sou tótó!

Ora, estou a fazer treino há 6 semanas e, muito embora não seja sou titular e/ou possuidora de balança alguma, não estou a ver grandes progressos com excepção de uma menção honrosa para a resistência física. Estou a fazer alguma coisa mal, está certinho. Mas o quê? Ah é isso, fechar a boca. Man, é difícil fazer dieta no estrangeiro.

‘Bora Cláudia, enche mais 30 flexões e larga o muffin! Lontra!!

Trabalho em Oslo… pois, não, nem por isso.

Oslo é uma cidade relativamente pequena. Os transportes são muitos e eficientes e levam-nos a todo o lado. Á parte dos transportes, o trânsito de bicicletas é impressionante em número quase igual ao número de carrinhos de bebé ( que ficam na rua, à porta dos cafés, mais os seus ocupantes para ganhar caparro. Afinfa-lhe Antunes!). Há, certamente, um surto de crianças por aqui. Ah e de calças de licra de desporto. Estou tentada a proclamar traje nacional.

É, também, uma cidade de imigrantes. Muitos, muitos. A minha turma de norueguês é exemplo disso mesmo: portuguesa, búlgara, tchechena, polaco, indonésia, filipina, macedónio e etíope. E, com muita frequência vemos emigrantes atrás dos balcões dos serviços. Isso encheu-me de esperança: “Ok, não falo norueguês (que é como quem diz Jeg snakker ikke norsk, tomaimbrulha) mas eles estão muito habituados a receber estrangeiros. Sou especializada, falo quatro línguas, acho que me safo.” Pois, mas não… Naturalmente que há situações em que o domínio da língua não é relevante: ser engenheiro numa empresa multinacional, um programador informático, etc. Todas as posições com contacto com o público estão-me, desde logo, vedadas. Quando vou à Zara a Lisboa não espero que quem me atende não fale português, ora, por aqui é igual. Mas achei que para fazer trabalhos menos especializados e mais reservados do olhar público falar norueguês fosse mais ou menos irrelevante. A minha actual experiência vem-me ditando o inverso. Para quase todas as posições (mesmo limpezas) é requerida a fluência na língua. Para as cozinhas de fast-food não, mas o problema é que há muita gente a concorrer e com menos qualificações. Será por isso que nunca me chamam? Trocando por miúdos (ah, seu Chico sempre na minha memória 🙂 ) não tive, ainda, sorte com a procura de emprego. Mas continuo a mandar postais.